2 de junho de 2015

POESIA EM METRO: Sessão de cinema

por Marcio de Almeida Bueno

O filme falava sobre não-sei-o-quê
e eu dormi quase toda a sessão
- não sei se perdi alguma coisa que valia a pena
ou se o sono velado e o cheiro de cigarro
eram só uma cena.

29 de abril de 2015

Cinemateca Capitólio em Porto Alegre

 Fotos: Marcio de Almeida Bueno
 






 


 A simpática Ângela é a operadora da sala de projeção, no terceiro andar, tal como Brad Pitt no filme 'Clube da Luta'


 



Deputados da CCJ aprovam sacrifício de animais em rituais

Ativistas da causa animal somam mais de 200 na Assembleia do RS

por Gelcira Teles*

Reunida pela terceira vez, na manhã desta terça-feira (28), para apreciar o Projeto de Lei 21/2015, da deputada Regina Becker (PDT), a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa do RS votou por sua inconstitucionalidade, ou seja, a maioria de seus integrantes foi favorável ao sacrifício de animais em rituais.  O projeto visa restabelecer a redação original do Código Estadual de Proteção aos Animais (Lei 11.915/03), retirando o parágrafo único do artigo 2º inserido pela Lei nº 12.131/04 - que autoriza os maus tratos e a morte de animais, apenas para os adeptos de religiões de matriz africana, excetuando-os do cumprimento da Lei.

O parecer pela constitucionalidade do presidente da CCJ, deputado Gabriel Souza (PMDB), recebeu 11 votos contrários e apenas o dele a favor. Votaram pela inconstitucionalidade do PL, ou seja, foram favoráveis ao sacrifício de animais em rituais: Jorge Pozzobom (PSDB), Manuela d Ávila (PCdoB), Ciro Simoni (PDT), Maurício Dziedricki (PDT), Frederico Antunes (PP), Luiz Fernando Mainardi (PT), Alexandre Postal (PMDB), Elton Weber (PSB), Stela Farias (PT), João Fischer (PP), Dr. Basegio (PDT). Além dos parlamentares da CCJ, acompanharam a votação e também defenderam a morte de animais pelos africanistas: Jeferson Fernandes (PT), Nelsinho Metalúrgico (PT), Tarcísio Zimmermann (PT), Pedro Ruas (PSOL), Altemir Tortelli (PT) e o ex-deputado Edson Portilho (PT), autor do projeto que alterou a Lei 11.915/03, estabelecendo uma exceção no Código criado para proteger os animais. Pelo Regimento Interno da Casa, a matéria segue agora para nova relatoria, que caberá ao deputado Jorge Pozzobom (PSDB).

Num clima de tensão e hostilidade, representantes de religiões de matriz africana e ativistas da causa animal lotaram a sala Maurício Cardoso, onde ocorreu a votação, e o Teatro Dante Barone, no qual um telão transmitiu a reunião ao vivo. Foram reservadas 12 senhas para cada grupo, mas novamente os religiosos constituíram a maioria da assistência na CCJ. Tambores, cânticos e palavras como “racista” de um lado, apitos, vaias e balões do outro, marcaram os protestos. Nos corredores, os grupos se confrontaram com palavras de ordem. Enquanto os ativistas abandonaram o Teatro gritando “a casa é do povo”, os africanistas rebatiam: “a casa é nossa”.
Provenientes de diversas cidades do RS, como Bagé, Pelotas, Passo Fundo,  Marau, Caxias do Sul, Charqueadas, Guaíba e Viamão, os defensores dos animais, que há mais de um mês vem à Assembleia para acompanhar a tramitação do PL 21/2015, compareceram com faixas, bandeiras e cartazes, e em maior número desta vez: em torno de 200. Embora inconformados com o resultado da votação e com as agressões que sofreram, mas confiantes na inexorável evolução das leis que garantem os direitos dos animais, os ativistas acreditam que a luta pelo fim do sacrifício de animais em rituais deve alcançar o debate com toda a sociedade, e chegar ao Supremo Tribunal Federal. “Matar animais não é legal. É crime ambiental. É inconstitucional.”, dizia uma das faixas, em referência à Lei 9605/1998 e ao artigo 225 da Constituição Federal, respectivamente.

Estiveram representados 22 grupos e ONGs do RS: Movimento Gaúcho de Defesa Animal (MGDA), Princípio Animal, Chicote Nunca Mais, Mira-Serra, Gatos & Amigos, Vila dos Peludos, Bicho de Rua, Gatas de Rua, Gateiras Bazar, Reino Gato, Anjos de Asas Invisíveis, Adoção Animal RS, Proteção Animal Caxias (PAC), Vira-Latas (Viamão), Sociedade Amigos dos Animais (SOAMA - Caxias do Sul), Núcleo Bageense de Proteção aos Animais São Francisco de Assis (NBPASFA), Bem-Estar Cavalos (Pelotas), Associação Guaibense Protetora dos Animais (AGPA), SOS Animais (Pelotas e  Viamão), Voluntariado Amicão (Charqueadas), Clube dos Amigos e Protetores dos Animais (CAPA - Passo Fundo), Brechocão (Marau), além de protetores independentes e simpatizantes da causa animal.

Representando 215 ONGs que subscreveram a Carta Aberta elaborada pelo Movimento Celebre a Vida, os ativistas garantem que sua posição não é racista ou intolerante – como os têm estigmatizado os próprios deputados e os africanistas, “pois defendem os direitos de uma minoria, da mais oprimida e ignorada das minorias, os animais. Lembram ainda que o direito da minoria visa proteger os mais fracos, os grupos em inferioridade, ameaçados, e, à toda prova, os mais débeis, ainda que não em número, são os animais”, segundo o último parágrafo da carta. Para reforçar a constitucionalidade do PL 21/2015, os defensores dos animais alegam que diante do que a Constituição estabelece, é imperioso reconhecer que a liberdade religiosa não inclui, no seu âmbito normativo (limite imanente), a lesão ou a matança de animais. Isto é, um crime não deixa de ser um crime só porque resolvem chamá-lo de “liberdade de culto”, pois o foco da justiça deve ser a vítima, e não o grupo que se sente injustiçado por não poder vitimar um inocente. “Infelizmente, os deputados da CCJ seguem discutindo, e votando, uma discriminação religiosa que não foi proposta pelo projeto de lei. Eles insistem que o PL quer impedir a liberdade de culto. Partem de premissas falsas para chegar a essa conclusão equivocada e mal intencionada, pois não se justifica que políticos experientes não saibam ler e avaliar uma Lei, ou um Projeto de Lei”, avaliou Maria Luiza Nunes, do MGDA.

* Gelcira Teles, jornalista (MTE/RS 6790), coordenadora executiva da ONG Mira-Serra. Colaborou William Szulczewski, estagiário de Jornalismo.

19 de fevereiro de 2015

CONTO: Back in black

por Marcio de Almeida Bueno

Tudo acontecera em pouco tempo. Ele começou a ver muita televisão, pois não tinha muito o que fazer. Um dia, notou que o rapaz na TV falava diretamente para ele, e o que dizia entrava de maneira muito agradável nos seus ouvidos. Como se estivesse ouvindo sua música favorita. E o rapaz continuava falando. Inicialmente era um comercial bobo de sabão em pó, mas o cara abandonou o texto decorado e começou a falar bem próximo da câmera, em um tom pausado e agradável. E contou muita coisa da vida do nosso herói, explicando porque ele era tão rejeitado, por que as garotas nunca se aproximaram dele, porque ninguém nunca lhe dava bom-dia. Disse também para estar atento à programação. E então o comercial terminou. Aqueles 30 segundos pareceram durar uma hora. Aí ele começou a pensar em tudo o que o moço da TV falara, e em como ele estava certo em tudo que dissera. Como é que ele sabia de tudo? Como é que ele tinha explicação para tudo aquilo? Todas aquelas passagens da sua vida, todos os fatos tristes que passara e para os quais nunca achara explicação. Como era bom Ter um conselheiro particular, alguém que se dispusera a ajudá-lo. E que não o mandava embora após 50 minutos de consulta. E o melhor de tudo era que só ele sabia que aquilo tudo se destinava a ele, sigilo total. Que bom.

(...)

Ela acordou como sempre, escovou os dentes como sempre, tomou o ônibus como sempre etc.

(...)

Então ele começou a prestar muita atenção na programação da televisão. Porque às vezes o rapaz aparecia no meio de uma novela, filme, programa de auditório, comercial de cigarro. Tudo estava normal até que o rapaz aparecia em cena, aproximava-se da câmera e dizia aquelas coisas tão bonitas. Os outrso atores nem notavam. O rapaz (ele não tinha nome, porra?) voltava a falar do porquê de tantos problemas na vida, e o que fazer para solucioná-los.

Um dia, o rapaz apareceu no meio de um filme de romanos e disse:

-Você é Deus. Corte esse cabelo e aja com tal. Não pense na destruição de todo o Universo senão o Universo se destruirá. Faça alguma coisa. Mostre ao mundo que

Aí a TV saiu do ar. Mas ele já sabia o que fazer. Cortou um pouco do cabelo com o aparelho de barbear que achara na rua, um dia. Enrolou-se no lençol e saiu à rua. Deu a volta no quarteirão e voltou para casa.

Ficou sentado no sofá, fumando e olhando para o passarinho morto na gaiola pendurada junto à janela. O passarinho morrera há duas semanas. ‘Por que será que ele não come a ração que eu coloco todos os dias?’, perguntava-se. Resolveu ouvir um pouco de música. Botou para tocar sua preferida, ‘Back In Black’, do AC/DC. Aqueles riffs são perfeitos. O vocalista Brian Johnson tinha voz de patolino e... algo estranho: a letra quase não mudava. ‘Back in black/ black is back/ back’n’back/ Beck is black/ back in neck/ crack is blank/ bank is clerk, etc’. o deveria estar com defeito. Então, uma súbita vontade de sair. Colocou um capote por cima do lençol que usava, já que estava ficando meio frio. Desceu as eternas escadas velhas do seu prédio e ficou perambulando por algumas horas nas ruas, até embarcar em um ônibus – sem destino certo. Acabou desembarcando em um bairro distante do seu, e na primeira esquina recolheu um papel novinho e colorido do chão. Era um convite para uma festa. Aliás, a festa era naquela noite e ficava ali perto. Alguém que estava indo deve ter deixado cair o ingresso.

Na entrada da festa, uma fila enorme com muita gente estranha: cabelos coloridos, roupas e adereços bizarros – clubbers. ‘Típicos pequeno-burgueses rebeldes’, pensou. Uma garota tinha uma argola que transpassava a bochecha (lembrou-se de um conto de Charles Bukowski).

-Vem cá, isso não dói não? – perguntou.

-Ih, qualé... aqui fora não tem clima pra cantada, lá dentro talvez... – desdenhou a moça.

Depois de uma boa espera (até parecia que a curtição mesmo era estar na fila), conseguiu chegar à porta e apresentar o convite ao porteiro, um crioulo grande e forte.

-Qualé o nome? – perguntou o porteiro, sem tirar os olhos de uma lista de nomes.

-Deus – respondeu, firme.

O crioulo sacudiu a cabeça, já acostumado com coisas do tipo.

-Teu nome não tá na lista. É Deus, mesmo? Não te chamam de outro nome, não?

-‘Aquele que tudo vê’

-Tá certo, amigo, mas esse também não tem. Vamos fazer o seguinte: eu tenho dez anos de casa e sei quando o cara quer entrar de safado ou não. Pela tua cara tu deve ser mesmo um convidado. Vai ver que teu nome tá na lista VIP, que não tá comigo. Tu deve ser um desses cantores de rock, né? Acho que já vi teu clip na MTV... pode entrá, viu?

(...)

Ela também estava na tal festa, e se interessou por aquele cara com um lençol por baixo do capote. Barba por fazer, cabelo com corte assimétrico, parecia um Mickey Rourke mais intelectual. E ela adorava caras tipo Mickey Rourke. Com tanta gente estranha naquele lugar ele nem seria notado, mas ela notou e se aproximou para conversar. Acabaram indo para o apartamento dele.

(...)

Isso era tudo de que se lembrava. Continuava deitado em sua cama, sem lençóis. Acendeu um cigarro. Pensava na mulher morta, agora assassinada (ou apenas esfaqueada pós-morte) por ele. Resolveu voltar para conferir, já que há muito tempo que não podia confiar nos próprios olhos, ou na própria memória, não tinha certeza. O fato é que voltou à sala inúmeras vezes, e em cada vez a mulher estava diferente: morta, sentada no sofá vendo TV, dormindo, agonizando. Voltou à sala outras vezes, e, na vez em que a mulher estava sentada vendo TV, decidiu aproximar-se.

-Bem underground o teu apê – disse ela. – Até a sujeira parece de verdade. Bem produzido. Só achei o canário morto um tanto kitsch, meio Joseph Beuyes.

-Não, não é canário, é passarinho. O nome dele é J.F.K. E acho que ele não tá morto.

-A-hã – disse ela, desinteressada. – Que tal ouvirmos um som?

-Meu som tá quebrado

-Tu não tem algum filme pra vermos no vídeo?

-Filme, só o ‘Cinema Falado’ do Caetano, mas gstaria de te mostrar umas gravações que fiz da TV – disse ele, enquanto colocava a fita na posição certa.

A fita era uma colagem caótica de imagens, lembrava ‘Revolution 9’ dos Beatles. Ele assistia fascinado, com um sorriso infantil, mas ela estava achando horrível.

-É, tem um conhecido meu que também faz vídeo, ele é videomaker, só que usa computação gráfica e

-Ele está sempre aí – ele interrompeu – gravei só para poder ver a qualquer hora.

-Ele quem?

-O moço da TV. Ele aparece para me dar conselhos. Mas só eu sei que os conselhos são para mim – disse ele, fanático, eufórico.

-Tu quer dizer que nessa fita aí tem um cara falando só pra ti? – ela perguntou, já transtornada.

-Pois é, ele tem sido meu melhor amigo. Estou chamando ele J.F.K.

-J.F.K. não era o nome do canário morto?! – perguntou ela, gritando.

-Já falei, não é canário: é passarinho. E não está morto – respondeu, enquanto acendia outro cigarro e pegava a faca.