29 de abril de 2015

Cinemateca Capitólio em Porto Alegre

 Fotos: Marcio de Almeida Bueno
 






 


 A simpática Ângela é a operadora da sala de projeção, no terceiro andar, tal como Brad Pitt no filme 'Clube da Luta'


 



Deputados da CCJ aprovam sacrifício de animais em rituais

Ativistas da causa animal somam mais de 200 na Assembleia do RS

por Gelcira Teles*

Reunida pela terceira vez, na manhã desta terça-feira (28), para apreciar o Projeto de Lei 21/2015, da deputada Regina Becker (PDT), a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa do RS votou por sua inconstitucionalidade, ou seja, a maioria de seus integrantes foi favorável ao sacrifício de animais em rituais.  O projeto visa restabelecer a redação original do Código Estadual de Proteção aos Animais (Lei 11.915/03), retirando o parágrafo único do artigo 2º inserido pela Lei nº 12.131/04 - que autoriza os maus tratos e a morte de animais, apenas para os adeptos de religiões de matriz africana, excetuando-os do cumprimento da Lei.

O parecer pela constitucionalidade do presidente da CCJ, deputado Gabriel Souza (PMDB), recebeu 11 votos contrários e apenas o dele a favor. Votaram pela inconstitucionalidade do PL, ou seja, foram favoráveis ao sacrifício de animais em rituais: Jorge Pozzobom (PSDB), Manuela d Ávila (PCdoB), Ciro Simoni (PDT), Maurício Dziedricki (PDT), Frederico Antunes (PP), Luiz Fernando Mainardi (PT), Alexandre Postal (PMDB), Elton Weber (PSB), Stela Farias (PT), João Fischer (PP), Dr. Basegio (PDT). Além dos parlamentares da CCJ, acompanharam a votação e também defenderam a morte de animais pelos africanistas: Jeferson Fernandes (PT), Nelsinho Metalúrgico (PT), Tarcísio Zimmermann (PT), Pedro Ruas (PSOL), Altemir Tortelli (PT) e o ex-deputado Edson Portilho (PT), autor do projeto que alterou a Lei 11.915/03, estabelecendo uma exceção no Código criado para proteger os animais. Pelo Regimento Interno da Casa, a matéria segue agora para nova relatoria, que caberá ao deputado Jorge Pozzobom (PSDB).

Num clima de tensão e hostilidade, representantes de religiões de matriz africana e ativistas da causa animal lotaram a sala Maurício Cardoso, onde ocorreu a votação, e o Teatro Dante Barone, no qual um telão transmitiu a reunião ao vivo. Foram reservadas 12 senhas para cada grupo, mas novamente os religiosos constituíram a maioria da assistência na CCJ. Tambores, cânticos e palavras como “racista” de um lado, apitos, vaias e balões do outro, marcaram os protestos. Nos corredores, os grupos se confrontaram com palavras de ordem. Enquanto os ativistas abandonaram o Teatro gritando “a casa é do povo”, os africanistas rebatiam: “a casa é nossa”.
Provenientes de diversas cidades do RS, como Bagé, Pelotas, Passo Fundo,  Marau, Caxias do Sul, Charqueadas, Guaíba e Viamão, os defensores dos animais, que há mais de um mês vem à Assembleia para acompanhar a tramitação do PL 21/2015, compareceram com faixas, bandeiras e cartazes, e em maior número desta vez: em torno de 200. Embora inconformados com o resultado da votação e com as agressões que sofreram, mas confiantes na inexorável evolução das leis que garantem os direitos dos animais, os ativistas acreditam que a luta pelo fim do sacrifício de animais em rituais deve alcançar o debate com toda a sociedade, e chegar ao Supremo Tribunal Federal. “Matar animais não é legal. É crime ambiental. É inconstitucional.”, dizia uma das faixas, em referência à Lei 9605/1998 e ao artigo 225 da Constituição Federal, respectivamente.

Estiveram representados 22 grupos e ONGs do RS: Movimento Gaúcho de Defesa Animal (MGDA), Princípio Animal, Chicote Nunca Mais, Mira-Serra, Gatos & Amigos, Vila dos Peludos, Bicho de Rua, Gatas de Rua, Gateiras Bazar, Reino Gato, Anjos de Asas Invisíveis, Adoção Animal RS, Proteção Animal Caxias (PAC), Vira-Latas (Viamão), Sociedade Amigos dos Animais (SOAMA - Caxias do Sul), Núcleo Bageense de Proteção aos Animais São Francisco de Assis (NBPASFA), Bem-Estar Cavalos (Pelotas), Associação Guaibense Protetora dos Animais (AGPA), SOS Animais (Pelotas e  Viamão), Voluntariado Amicão (Charqueadas), Clube dos Amigos e Protetores dos Animais (CAPA - Passo Fundo), Brechocão (Marau), além de protetores independentes e simpatizantes da causa animal.

Representando 215 ONGs que subscreveram a Carta Aberta elaborada pelo Movimento Celebre a Vida, os ativistas garantem que sua posição não é racista ou intolerante – como os têm estigmatizado os próprios deputados e os africanistas, “pois defendem os direitos de uma minoria, da mais oprimida e ignorada das minorias, os animais. Lembram ainda que o direito da minoria visa proteger os mais fracos, os grupos em inferioridade, ameaçados, e, à toda prova, os mais débeis, ainda que não em número, são os animais”, segundo o último parágrafo da carta. Para reforçar a constitucionalidade do PL 21/2015, os defensores dos animais alegam que diante do que a Constituição estabelece, é imperioso reconhecer que a liberdade religiosa não inclui, no seu âmbito normativo (limite imanente), a lesão ou a matança de animais. Isto é, um crime não deixa de ser um crime só porque resolvem chamá-lo de “liberdade de culto”, pois o foco da justiça deve ser a vítima, e não o grupo que se sente injustiçado por não poder vitimar um inocente. “Infelizmente, os deputados da CCJ seguem discutindo, e votando, uma discriminação religiosa que não foi proposta pelo projeto de lei. Eles insistem que o PL quer impedir a liberdade de culto. Partem de premissas falsas para chegar a essa conclusão equivocada e mal intencionada, pois não se justifica que políticos experientes não saibam ler e avaliar uma Lei, ou um Projeto de Lei”, avaliou Maria Luiza Nunes, do MGDA.

* Gelcira Teles, jornalista (MTE/RS 6790), coordenadora executiva da ONG Mira-Serra. Colaborou William Szulczewski, estagiário de Jornalismo.

19 de fevereiro de 2015

CONTO: Back in black

por Marcio de Almeida Bueno

Tudo acontecera em pouco tempo. Ele começou a ver muita televisão, pois não tinha muito o que fazer. Um dia, notou que o rapaz na TV falava diretamente para ele, e o que dizia entrava de maneira muito agradável nos seus ouvidos. Como se estivesse ouvindo sua música favorita. E o rapaz continuava falando. Inicialmente era um comercial bobo de sabão em pó, mas o cara abandonou o texto decorado e começou a falar bem próximo da câmera, em um tom pausado e agradável. E contou muita coisa da vida do nosso herói, explicando porque ele era tão rejeitado, por que as garotas nunca se aproximaram dele, porque ninguém nunca lhe dava bom-dia. Disse também para estar atento à programação. E então o comercial terminou. Aqueles 30 segundos pareceram durar uma hora. Aí ele começou a pensar em tudo o que o moço da TV falara, e em como ele estava certo em tudo que dissera. Como é que ele sabia de tudo? Como é que ele tinha explicação para tudo aquilo? Todas aquelas passagens da sua vida, todos os fatos tristes que passara e para os quais nunca achara explicação. Como era bom Ter um conselheiro particular, alguém que se dispusera a ajudá-lo. E que não o mandava embora após 50 minutos de consulta. E o melhor de tudo era que só ele sabia que aquilo tudo se destinava a ele, sigilo total. Que bom.

(...)

Ela acordou como sempre, escovou os dentes como sempre, tomou o ônibus como sempre etc.

(...)

Então ele começou a prestar muita atenção na programação da televisão. Porque às vezes o rapaz aparecia no meio de uma novela, filme, programa de auditório, comercial de cigarro. Tudo estava normal até que o rapaz aparecia em cena, aproximava-se da câmera e dizia aquelas coisas tão bonitas. Os outrso atores nem notavam. O rapaz (ele não tinha nome, porra?) voltava a falar do porquê de tantos problemas na vida, e o que fazer para solucioná-los.

Um dia, o rapaz apareceu no meio de um filme de romanos e disse:

-Você é Deus. Corte esse cabelo e aja com tal. Não pense na destruição de todo o Universo senão o Universo se destruirá. Faça alguma coisa. Mostre ao mundo que

Aí a TV saiu do ar. Mas ele já sabia o que fazer. Cortou um pouco do cabelo com o aparelho de barbear que achara na rua, um dia. Enrolou-se no lençol e saiu à rua. Deu a volta no quarteirão e voltou para casa.

Ficou sentado no sofá, fumando e olhando para o passarinho morto na gaiola pendurada junto à janela. O passarinho morrera há duas semanas. ‘Por que será que ele não come a ração que eu coloco todos os dias?’, perguntava-se. Resolveu ouvir um pouco de música. Botou para tocar sua preferida, ‘Back In Black’, do AC/DC. Aqueles riffs são perfeitos. O vocalista Brian Johnson tinha voz de patolino e... algo estranho: a letra quase não mudava. ‘Back in black/ black is back/ back’n’back/ Beck is black/ back in neck/ crack is blank/ bank is clerk, etc’. o deveria estar com defeito. Então, uma súbita vontade de sair. Colocou um capote por cima do lençol que usava, já que estava ficando meio frio. Desceu as eternas escadas velhas do seu prédio e ficou perambulando por algumas horas nas ruas, até embarcar em um ônibus – sem destino certo. Acabou desembarcando em um bairro distante do seu, e na primeira esquina recolheu um papel novinho e colorido do chão. Era um convite para uma festa. Aliás, a festa era naquela noite e ficava ali perto. Alguém que estava indo deve ter deixado cair o ingresso.

Na entrada da festa, uma fila enorme com muita gente estranha: cabelos coloridos, roupas e adereços bizarros – clubbers. ‘Típicos pequeno-burgueses rebeldes’, pensou. Uma garota tinha uma argola que transpassava a bochecha (lembrou-se de um conto de Charles Bukowski).

-Vem cá, isso não dói não? – perguntou.

-Ih, qualé... aqui fora não tem clima pra cantada, lá dentro talvez... – desdenhou a moça.

Depois de uma boa espera (até parecia que a curtição mesmo era estar na fila), conseguiu chegar à porta e apresentar o convite ao porteiro, um crioulo grande e forte.

-Qualé o nome? – perguntou o porteiro, sem tirar os olhos de uma lista de nomes.

-Deus – respondeu, firme.

O crioulo sacudiu a cabeça, já acostumado com coisas do tipo.

-Teu nome não tá na lista. É Deus, mesmo? Não te chamam de outro nome, não?

-‘Aquele que tudo vê’

-Tá certo, amigo, mas esse também não tem. Vamos fazer o seguinte: eu tenho dez anos de casa e sei quando o cara quer entrar de safado ou não. Pela tua cara tu deve ser mesmo um convidado. Vai ver que teu nome tá na lista VIP, que não tá comigo. Tu deve ser um desses cantores de rock, né? Acho que já vi teu clip na MTV... pode entrá, viu?

(...)

Ela também estava na tal festa, e se interessou por aquele cara com um lençol por baixo do capote. Barba por fazer, cabelo com corte assimétrico, parecia um Mickey Rourke mais intelectual. E ela adorava caras tipo Mickey Rourke. Com tanta gente estranha naquele lugar ele nem seria notado, mas ela notou e se aproximou para conversar. Acabaram indo para o apartamento dele.

(...)

Isso era tudo de que se lembrava. Continuava deitado em sua cama, sem lençóis. Acendeu um cigarro. Pensava na mulher morta, agora assassinada (ou apenas esfaqueada pós-morte) por ele. Resolveu voltar para conferir, já que há muito tempo que não podia confiar nos próprios olhos, ou na própria memória, não tinha certeza. O fato é que voltou à sala inúmeras vezes, e em cada vez a mulher estava diferente: morta, sentada no sofá vendo TV, dormindo, agonizando. Voltou à sala outras vezes, e, na vez em que a mulher estava sentada vendo TV, decidiu aproximar-se.

-Bem underground o teu apê – disse ela. – Até a sujeira parece de verdade. Bem produzido. Só achei o canário morto um tanto kitsch, meio Joseph Beuyes.

-Não, não é canário, é passarinho. O nome dele é J.F.K. E acho que ele não tá morto.

-A-hã – disse ela, desinteressada. – Que tal ouvirmos um som?

-Meu som tá quebrado

-Tu não tem algum filme pra vermos no vídeo?

-Filme, só o ‘Cinema Falado’ do Caetano, mas gstaria de te mostrar umas gravações que fiz da TV – disse ele, enquanto colocava a fita na posição certa.

A fita era uma colagem caótica de imagens, lembrava ‘Revolution 9’ dos Beatles. Ele assistia fascinado, com um sorriso infantil, mas ela estava achando horrível.

-É, tem um conhecido meu que também faz vídeo, ele é videomaker, só que usa computação gráfica e

-Ele está sempre aí – ele interrompeu – gravei só para poder ver a qualquer hora.

-Ele quem?

-O moço da TV. Ele aparece para me dar conselhos. Mas só eu sei que os conselhos são para mim – disse ele, fanático, eufórico.

-Tu quer dizer que nessa fita aí tem um cara falando só pra ti? – ela perguntou, já transtornada.

-Pois é, ele tem sido meu melhor amigo. Estou chamando ele J.F.K.

-J.F.K. não era o nome do canário morto?! – perguntou ela, gritando.

-Já falei, não é canário: é passarinho. E não está morto – respondeu, enquanto acendia outro cigarro e pegava a faca.

25 de janeiro de 2015

OVNIs sobre a Nilo Peçanha no dia 23 de janeiro, 19h


Na rua Luzitânia, uma casa-arte


CONTO: "-Hardcore, baby"

por Marcio de Almeida Bueno

‘Certo, certo, certo’ – ele disse, enquanto carregava o revólver. Foi até a janela e mirou na multidão, lá embaixo. Atirou tipo bingo. Alguém caiu no chão. ‘Um a menos para comer a minha mulher’. Ela, encolhida num canto da sala, começou a chorar e gritar:

-Pare!! Isso não vai resolver o nosso problema!!

-Calaboca sua cadela! – respondeu, enquanto esmurrava a mulher. Só parou quando ela parecia desmaiada. Arrastou-a apartamento a fora, dobrando à direita no corredor e depois à esquerda. Colocou a mulher na salinha onde ficava o lixo. Na verdade era uma escada com porta corta-fogo, mas acabara virando lixeira. ‘Espero que o zelador não resolva te foder, se vier buscar o lixo e tu ainda estiver desmaiada’. Desceu as escadas até o térreo e cumprimentou o zelador, que tinha hálito de cárie podre. O aluguel podia ser barato, mas o hálito parecia vir do ânus do cara. Talvez viesse.

Já na rua, viu o aglomerado de pessoas ao redor do recém-morto. Alguém chamara a polícia. Chegou perto, e, distraído, perguntou a um dos muitos curiosos:

-Que que deu?

-Mataro um home. (...) Parece que foi um preto, ‘ssaltô ele, matô ele e fugiu correno. Esse centro tá cada veiz peior. A gente que trabalha num pode nem saí que morre. Esses dia

Largou o outro no meio da frase e saiu em passo acelerado. Imerso em pensamentos. ‘Preciso fazer algo. Grana. Me mexer. Já resolvi o problema com aquela vaca. Puta. Nada que umas balas de revólver não possam resolver. (...) Puta merda, aquele flagra que eu dei nela tá me excitado. Aquele coitado metendo nela em cima do sofá, quando eu abri a porta. Aí eu meti cinco balas nele. Agora ele tá guardado no banheiro. Grana. Preciso me mexer.’

Já estava há umas dez quadras do apartamento quando pensou que aquela movimentação toda em frente ao seu prédio poderia facilitar a desova do corpo do ex-Ricardão. Voltou. A aglomeração estava maior, viera uma ambulância, ou rabecão do IML, não podia ver direito. Entrou no seu prédio. O zelador estava na porta, espiando o tumulto.

-Que que é o quê, lá? – perguntou o zelador, sem olhar para ele.

-Um desses camelôs que fazem truques, e tal. Acho que é a Cobra Catarina.

Enquanto subia as escadas pensava na resposta que recém havia dado. Sempre fora assim durante a vida inteira. Ficava contente quando conseguia pensar rápido e dar uma resposta infame, com a cara mais séria da mundo.

Chegou no apartemento. Amulher esperava-o sentada no sofá, fumando. O rosto inchado e com hematomas. Tinha feito um bom serviço.

-A gente tem que conversar. – ela disse, com o mesmo olhar do dia do casamento.

(...)

-O que que a gente via fazer com a porra desse corpo? – ele perguntou, já sentado e de chinelos.

-Calma. – ela respondeu, cúmplice – O carro dele está lá na garagem. As chaves estão aqui.

Mostrou as chaves. Ele vicou olhando para as chaves. Sempre achara um molho de chaves algo como um rosto, diferente, pessoal, intransferível e sem outro igual. As chaves dos outros eram sempre diferentes, argolas, chaveirinho de sei-lá-que-firma.

-Ele veio de carro? Porra.

(...)

Carregaram o corpo até a garagem e colocaram no porta-malas. Embarcaram no veículo e saíram, sem direção exata.

-E daí, pr’onde vamos? – ele perguntou, automaticamente. Trabalhara como motorista de táxi por 7 anos.

-Acho melhor esquecer o carro em algum lugar, com o corpo. A gente podia largar num sítio, colocar uma lona em cima e dizer byebye, so long, farewell – ela disse, cantando sorrindo.

‘...ou jogar o carro na valeta e tocar fogo’ – ele respondeu mentalmente, enquanto fuçava no painel do carro. Achara uma fita K7. Metera no tape-deck. Blues. Um preto cantava ‘ma woman’s ballin’nother man... ‘n ‘s not da first time, baby... dis ma blues o’ number ten’.

(...)

Voltaram de ônibus desse sítio nos arredores da cidade.

-Tu tá legal? – ele perguntou, com ternura.

-A-hã.

(...)

Já em casa, conversavam deitados na cama, luz apagada.

-E aquele cara que tu matou, na rua?- ela perguntou, um pouco nervosa.

-Foda-se. Como vão saber que fui eu? Tem milhares de janelas circulando esse claçadão. Devia ser um pobre-coitado que estava merecendo castigo, ou algo assim. Posso Ter feito justiça. Uma bondade. Acho que vou começar a fazer isso mais freqüentemente – comentou irônico.

-Como será que era a vida dele? Seus amores,

-(Interrompendo) Meio brocha. Pau pequeno. Começando a ficar careca. Bigode. Separou-se da mulher e foi morar com uma tia. Tinha vontade de comer a tia. Ficava num boteco até tarde. Roncava. Trabalhava de sei-lá-o-quê. (...) Legal aquela fitinha de blues. Guardei ela comigo, tipo souvenir.

Nesse instante começaram a ouvir ruídos abafados vindo do apto ao lado. Os ruídos não cessavam. Ele se interessou, levantou e foi escutar na parede com um copo. A mulher, sonolenta, dizia para ele não dar bola e ir dormir. Mas ele ficou ouvindo. A conversa era estranha. Gemidos. Resolveu espiar. Usou um cabo de vassoura com um espelho colocado estrategicamente na ponta.

Conseguia ver o casal vizinho transando. Mas... sexo bizarro. Trajes, objetos. A mulher penetrava o marido com um pênis de plástico preto colocado na cintura. Depois, restos de comida usados de maneira inimaginável. Ele se sentiu até nauseado, e parou de espiar.

Olhou para a própria mulher na cama, já dormindo. Lembrou-se do flagra naquela tarde. Ficou excitado. De repente, lembrou-se do revólver. Não sabia dizer onde havia deixado. No carro? Pensou em acordar a mulher, mas raciocinou que ela podia ter pego a arma, para matá-lo. Lembrou-se do quartinho do lixo, no corredor. Foi até lá e achou o revólver num canto. O lixo não havia sido recolhido. Resolveu espiar o lixo dos vizinhos que transavam. Podia achar algum apetrecho ou umas revistinhas. Abriu o saco e achou várias embalagens de colírio. Será que eles são uns hippies velhos? ‘Maconha só me dá sono’ – pensou. Voltou ao apartamento, escondeu a arma dentro da caixa-d’água do vaso sanitário e foi deitar, imerso em pensamentos, até cair no sono.

Na noite seguinte, foi novamente espiar as atividades dos vizinhos. A esposa estava vestida de noiva e marido de noivo, com fraque e tudo. Estavam representando alguma nova fantasia. ‘Enfim sós: nossa lua-de-mel’, ele disse. ‘Oh, querido’, ela respondeu, apaixonada. Eis que o ‘noivo’ tira rapidamente seu traje e exibe seu corpo nu. Um piercing em cada mamilo, unidos por uma corrente. Uma argola colocada no prepúcio, impedindo a saída da glande. Grilhões por todo o corpo. Agulhas colocadas aleatoriamente, paralelas ao corpo, de maneira a não aparecerem por baixo da roupa.

-O que é isso?! – gritou a ‘noiva’, maliciosamente ingênua.

-Hardcore, baby. – respondeu o marido, arrancando as roupas dela e iniciando novamente as atividades.

Ele continuava espiando o casal. Parou por um momento e foi buscar a máquina fotográfica. Debruçando-se para fora da janela, conseguiu bater várias fotos, arriscando-se a cair lá embaixo. Revelou as fotos no seu mini-estúdio. Estivera trabalhando de fotógrafo policial para um jornal sensacionalista. Saiu do apto levando as fotos, bateu na porta do vizinho. O vizinho demorou bastante mas acabou atendendo a porta. Estava encharcado de suor, com um pijama seco que deve ter sido colocado às pressas.

-Boa noite.

-Boa noite. – respondeu o vizinho

-Eu trabalho para o jornal ____________ e vim pedir para o senhor escolher qual destas fotos é a melhor para a capa da edição de amanhã. – falou seco, mostrando as fotos. O vizinho olhou apavorado e puxou-o para dentro.

-Como é que tu conseguiu isso?! – perguntou o vizinho, trêmulo.

-As paredes têm ouvidos e as janelas têm olhos. – respondeu firme. Notou que o vizinho tinha vermelhidão e inchaço nos olhos. Fumou um baseado, no mínimo. Apareceu a esposa, seminua, para ver o que estava acontecendo. Ela também tinha os olhos estranhos. Também devia fazer parte da esquadrilha da fumaça, hê-hê. O vizinho mostrou as fotos para a esposa, dizendo:

-Acho que ele quer algo para não mandar publicar essas fotos.

A esposa do vizinho olhou ele de cima a baixo, sensualmente, e disse:

-Bom, tu não gostaria de participar das nossas sessões... como pagamento?

-Desculpe, dona – disse ele, cortando – Sexo para mim é o mesmo que os meus pais faziam, só que mais rápido. Quero grana.

-Grana. – ela repetiu, como que para ter certeza.

Os vizinhos se entreolharam, até que o marido falou:

-A gente não tem grana. Pelo menos não no momento. Mas podemos pagar com uma coisa mais valiosa.

Foi até uma gaveta e trouxe um pedacinho de papel plastificado e um colírio. No meio do papel plastificado havia um pontinho lilás minúsculo, como uma cabeça de alfinete.

-Me desculpe, mas não vou tomar ácido. – recusou, irritado – a única vez que tomei foi na praia e acordei dois dias depois pelado dentro de uma viatura.

-Não, esta é uma droga nova – disse calmamente o vizinho. Parecia um crente falando de Jesus – Chama-se Little Wing, em homenagem ao Jimi hendrix.

-Nunca ouvi.

-Tu deve colocar o ponto lilás na mucosa do olho, deixando dissolver. Esta dose faz parte da primeira e única remessa existente. Por enquanto. O efeito colateral é uma irritação nos olhos. Use o colírios.

-E eu pensando que vocês eram uns maconheiros tarados de merda.

Ele saiu da casa dos vizinhos, carregando somente o ‘Little Wing’. ‘Que idiotas’, pensou, ‘é claro que vou publicar as fotos, tenho mais cópias comigo.’

Entrou no seu apartamento. A mulher dormia. Aquela vaca. Tirou a roupa de sentou no sofá, no escuro, escutando os gemidos dos vizinhos do lado. Colocou o ponto lilás no olho.

(...)

Na manhã do dia seguinte a mulher acordou e encontrou ele sentado no sofá, olhos vidrados. Ela perguntou, entre curiosa e sonolenta:

-O que é que tu fez aí a noite inteira? Não veio dormir?

-"Eu vi Deus" – ele respondeu, como se estivesse lendo ou recitando as palavras. Não piscou nem olhou para ela – "Ele tinha acabado de se suicidar, com um tiro na cabeça. Não sei o que o levou a fazer isso, mas acho que não era grande coisa. Nada que uma bala de revólver não pudesse resolver."

15 de janeiro de 2015

A calma zen da mais bela praça de Porto Alegre


Sem nenhuma dúvida, a praça mais bonita de Porto Alegre é a Praça Japão, entre a Plinio Brasil Milano e o IAPI. O visitante parece estar entrando em um sonho, pois sai da zoeira automotiva e entra em um lugar aprazível, absurdamente calmo - na tradição oriental, com direito a cachoeira para refrescar os pés. Poucos frequentam o local.