8 de dezembro de 2014

Artigo: A dama e o veado

 Fotos: Jen Osborne



por Marcio de Almeida Bueno

De maneira que esse amor sob confinamento, quase uma cena de S/M, é perceptível no momento em que uma das partes está com uma corda no pescoço. Claro, nem todos percebem essa sutileza, linha tênue que separa uma história emocionante, ‘inspiradora e exemplar’, de um relato ingênuo que vê brilho nas molduras da tristeza. É como vejo o caso de Janet Schwartz e seu veado Bimbo.

Para quem não acompanhou o caso, Janet Schwartz é uma idosa que criou o veado Bimbo desde seu primeiro dia de vida, morta a mãe doze anos atrás. Agora ele passa seus dias em um curral lamacento - de onde não poderia escapar de um urso ou puma, abafa o caso - e dorme dentro de casa durante a noite. O governo do Canadá interferiu porque é ilegal ter um animal selvagem como ‘pet’, aí virou comoção, entrou a Imprensa no meio, ‘onde já se viu, pobre velhinha’, e ficou por isso mesmo. Bimbo na coleira, amarrado aqui, preso acolá, trancafiado em casa na hora de ser bibelô e dar selinho em sua dona - repito - dona, depois volta para o cercado enlameado. É sua gaiola, seu aquário.


Entre o bucólico que a fotografia transmite, a beleza rural que tantas lembranças trazem, está um contrato de propriedade à força. Bimbo não é mais ele próprio - correndo pelos bosques canadenses, escapando dos ursos, fazendo fuc-fuc e constituindo família, e o que quer que os cervos façam em seu dia a dia, que não deveria ser da nossa conta. Não, Bimbo virou Bambi, um animal-brinquedo, animal-consolo, animal-meta e bichinho de pelúcia de si mesmo. Sua dona - firso - dona tem certeza de que tudo está OK porque Bimbo lhe dá lambidas e selinhos.

Como muitos animais que caíram nas mãos de amorosos humanos. Alguns têm uma rodinha para correr o dia todo, outros ficam presos o tempo todo porque são ‘muito brabos’, outros andam na calçada aos puxões no pescoço, enquanto alguém impacientemente espera por um cocô, xixi ou cheirada, outro tem um lindo aquário para nadar em círculos, outro cumpre pena de prisão perpétua em uma solitária cujo jornal é trocado todos os dias, com, hã, amor.

O que muda é o tamanho da gaiola.

1 de dezembro de 2014

Feira Vegana Especial de Natal acontece no próximo domingo

No dia 07 de dezembro, domingo, das 11h às 21h, acontece a Feira Vegana de Porto Alegre Especial de Natal, na Casa Liberdade (Rua Liberdade, 553 - bairro Rio Branco – Porto Alegre/RS).
O evento contará com 17 expositores de produtos exclusivamente veganos, que comercializarão alimentos, cosméticos, produtos de higiene e limpeza, todos livres de crueldade animal.
Os grupos Bichos do Sarandi e Gatos da Redenção, que cuidam de animais carentes na capital, estarão promovendo um brechó beneficente. Um evento de adoção de animais abandonados será organizado pelo grupo Patas Dadas.
O coletivo Vanguarda Abolicionista estará distribuindo material educativo sobre direitos dos animais e orientando as pessoas acerca do veganismo.
A empresa Delivery Veg estará sorteando uma cesta de Natal, recheada de produtos veganos, para seus clientes.
Às 11h, acontece uma oficina de suco verde, oferecida pelo valor de R$ 10,00. Não é necessária inscrição antecipada.
Às 14h, acontece a palestra “Alimentação Veg, o remédio Divino”, com o terapeuta ayurvédico Radhanti Maharaj.
Às 16h, a psicóloga e ativista Eliane Carmanim Lima falará sobre “O mito da proteína animal, da bioquímica às ciências sociais”.

Link do Evento: https://www.facebook.com/events/1517971001795149/?fref=ts.

27 de novembro de 2014

Locked love

Pois esses dias alguém colocou um cadeado em uma das grades da passarela sobre a avenida Goethe, que une os dois lados do Parcão. Nele, os dizeres 'Nice & Zoca'. Imagino que um casal prafrentex tenha feito tal proeza, visando uma marca pública de seu compromisso amoroso. Talvez ambos tenham uma cópia da chave, com a jura de que somente ao - evantual - final da relação, algum vá abrir o cadeado para tirá-lo dali. Enquanto isso, no 'eterno enquanto dura', fica o objeto bem preso na passarela, ao olhar de tantos passantes, lembrando as próprias façanhas quando apaixonados, e outras lembranças. Daria um bom roteiro para cinema.

Papi vota em Pepe, óbvio


Na banca de churros do Papi, simpático uruguaio que trabalha na esquina da 24 de Outubro com Nova York, agora há buttons de Pepe Mujica. Ele viajou recentemente a seu país para votar nas eleições presidenciais, cujo segundo turno é por este dias. Papi completou oitenta anos no mês passado, e segue firme no trabalho, conquistando a todos com seu jeito de vovô boa-praça. A propósito, veganos têm como opção o churros de goiabada, sendo que a massa básica é isenta de ingredientes de origem animal.


Um pôr-do-Sol logo ali

Conforme o dia e o horário, é possível estar no Mercado Público e acompanhar, via Sete de Setembro, toda a beleza do pôr-do-Sol no lago Guaíba. O segredo é ficar parado, alheio à zoeira perene dos veículos que ali fazem um 'S' para pegar a avenida Júlio de Castilhos - para onde vai toda essa gente, mesmo? - e relaxar. O espetáculo dura alguns minutos, embora pouca gente esteja, estando fora do Facebook e do What's App, acompanhando um show de cores e luzes. Um pôr-do-Sol logo ali.

Céus

Neste novo edifício da Tobias da Silva, quase em frente à saída secundária do Shopping Moinhos, é difícil precisar onde termina o céu e onde começa o arranha-céus. Que os passarinhos estejam com o GPS atualizado.

16 de novembro de 2014

'Vocês são os que não comem carne, né?' e o gado com fones de ouvido

por Marcio de Almeida Bueno

Na verdade, o abate é tão somente uma das faces da escravidão animal – de forma diferente, podemos citar os cavalos de carroça, os coelhos em laboratórios de testes de produtos, o touro na tourada, o macaco no zoológico, a lagosta viva no restaurante chique, os cachorros nas fazendas chinesas, a lista é quase infinita. Quer dizer, há o abate final após uma vida de não-liberdade, e há a vida inteira de tortura, sem a bênção da morte como fim do terror. Se bem que, por exemplo, os cavalinhos de carroça são estourados a vida toda, e na finaleta alguns acabam no abatedouro, diferente de seus iguais que capotaram no asfalto e espumaram pela boca até a chegada do toque piedoso da senhora Morte.

Então o cidadão médio nivela a coisa como ‘não comem carne, né?’, pelo máximo de excentricidade que consegue vislumbrar – um abstêmio, como já ouvi certa vez. Pensar naquilo que não lhe traz um ganho imediato, e sempre para si, está fora de cogitação, pois desde o parar de fumar até a reza aos domingos, é sempre para benefício pessoal, em última análise.

Mas há uma realidade por trás do glamour aparente, desta opção não-escolhida que a maioria segue entoando tal como não escolheu o time de futebol para o qual torce, mesmo que grite e pule a cada jogo assistido. E a grande massa pensa, por ignorância ou remorso, que tudo é como no sítio da Vovó Donalda, com animais felizes e de estimação. Uma rápida análise das embalagens dos produtos em supermercado nos faz pensar que os animais voluntariamente dão sua vida pela carne servida aos humanos, a galinha cordialmente se esforça para dar os ovos aos humanos, o porco aparece com chapéuzinho de cozinheiro, etc. Sempre para os humanos, jamais seus corpos-ingredientes são gentilmente cedidos às feras, aos predadores naturais – os tão citados carnívoros! – ou a quem, vá lá, esteja moribundo e morrendo de fome. Sempre ao dono-patrão-proprietário-’tutor’-patriarca-humano.

Aquela visão bucólica da pecuária, onde sempre parece que o gado está de fones de ouvido, praticamente meditando.

E os processos industriais ou da agricultura familiar não entram nesse cálculo, porque para quem morre ou dá seus anos de vida em troca de alimento diário, tanto faz se o algoz é de uma família quatrocentona latifundiária oligárquica ou é pobre, sem-terra. Há quem fique chocado ao ver uma castração a frio – ‘tradição’ cívica em regiões do RS – que ocorre sempre longe dos flashes da mídia comprometida em lamber as botas do patronato rural. Mas quem faz a castração a faca, faz de forma automática, com cigarro no canto da boca, já esquentando o fogareiro rústico para apreciar as bolas de touro, “que se abrem como couve-flor, quando está no ponto”, como já escutei.

Quem martela o gongo do antiespecismo pretende descolar as pálpebras da pessoa ao lado, largar uma bolinha de ping-pong nas ideias, com vistas não a um ganho seu, mas ao que percebe como justo. Talvez isso é o que provoque tantas reações contrárias e narizes torcidos, em um mundo onde quem não leva algum, está por fora.

E qualquer informação desagradável, imagem chocante, nada mais é que o mundo real, o expediente diário de quem decide a utilização deste ou daquele animal para seu lucro, ou para o lucro de seu patrão. Entretanto, a imagem desagradável do macaco no laboratório é fruto de quem acha que os animais estão aí para nos servir, a imagem desgradável do porco pendurado em ganchos é fruto de quem acha que os animais estão aí para nos servir de alimento, ‘e todo esforço é necessário, afinal de contas’. o antiespecismo aponta essa injustiça e propõe uma vida fora do que a ‘tradição’ manda.

Não se separa a atitude em gavetinhas etiquetadas, compartimentando as pessoas conforme os conceitos até então aprendidos – e que diariamente se provam errados. Não comer carne é ‘um pequeno passo para o homem’ etc. Mas é uma ação para abrir as demais portas, que como as pálpebras estavam seladas pelo bom-mocismo das ideias, pelo medo de parecer idiota.

À venda em nossa eshop:

LIvro Havana 63, de Cesar Dorfman, edição de  luxo de 2013  da Movimento, 330 páginas, formato maior, ilustrado, novo, ótimo estado de conservação, veja fotos.

A obra é resultado de quatro anos de buscas, pesquisas e reencontros que tentam remontar a história vivenciada pelo autor e outros 400 estudantes de arquitetura que participaram do Encontro Internacional de Professores e Estudantes e do VII Congresso da União Internacional de Arquitetos de Havana, em Cuba, em 1963. Algumas das histórias retratadas na viagem são encontros com um dos principais ideólogos e comandantes da Revolução Cubana, Che Guevara, e com Fidel Castro, também revolucionário comunista cubano e primeiro presidente do Conselho de Estado da República de Cuba. Dorfman também aborda as consequências nas vidas dos participantes dos eventos em Cuba após a instalação das ditaduras militares nos países sul-americanos. Cesar Dorfman é arquiteto formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1964. Nestes quase cinquenta anos de profissão, acumulou um notável currículo de projetos construídos e publicados, tendo na última década conquistado quatorze prêmios em Concursos Nacionais de Anteprojetos e recebido espaço especial na VII Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo. De 1976 a 2010, trabalhou como professor da UFRGS. O produto pode ser comprado em http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-602324478-havana-63-cesar-dorfman-cuba-che-guevara-fidel-unio-arquite-_JM#eshop_DIRETODEPORTOALEGRE.


Arte urbana na Independência


Santa Casa com mais cor

No paredão do Complexo da Santa Casa, à beira do viaduto sobre a João Pessoa / Salgado Filho, uma colorida ilustração celebrou o Outubro Rosa.