3 de setembro de 2014

Brechó pelos animais é neste domingo

A tradicional ONG de proteção Bichos & Amigos realiza neste domingo, 7 de setembro, seu conhecido brechó em prol dos mais de 150 gatos e cachorros que abriga. Moda, brinquedos, livros, LPs, CDs, bijouteria e outros novos/seminovos serão vendidos a preços módicos. O evento vai das 10h às 17h na rua Aliança, 289, que corta a Assis Brasil entre o Bourbon Wallig e o Shopping Lindória, Zona Norte de Porto Alegre. Doações de ração são muito bem-vindas. Outras informações podem ser obtidas pelo facebook.com/OngBichosEAmigos, 51-8461-5077 ou bichoseamigos@bichoseamigos.org.br. Os animais agradecem.

Cara de qual carne?

por Ellen Augusta Valer de Freitas

Recentemente uma pessoa famosa foi vista com um casaco de pele. A pele era falsa, mas como a celebridade é alvo de fofoca, só depois foi confirmado o fato. Até então, os mesmos que espalharam o boato, não se furtaram de usar seus sapatos e artefatos de couro - que é pele sem pelos - nem deixaram de tomar leite, nem de praticar toda a extensão do mal que causam aos animais. Mas julgam-se defensores, gritam em nome de uma justiça que talvez não sejam capazes de fazer.

O que a celebridade incentivou, na verdade, foi a indústria têxtil que não utiliza peles de animais.

O que essas pessoas ‘críticas’ incentivam, é a indústria do couro e o cinismo, de que se pode comer e utilizar uns, e sacralizar outros. É muito mais nocivo usar algo de origem animal, mesmo escondido, do que usar um produto que poupe os animais. Lembrando que os curtumes de couro podem poluir até muito mais, pois é mais comum. Nas lojas, vendedoras mal informadas dizem: couro é caro. Mentira. Existem couros animais de todos os tipos, vagabundos. A carne e o couro brasileiro nem são aceitos em alguns países pela sua baixa qualidade, exploração do trabalho e poluição.

O purismo de evitar as comidas veganas que ‘lembram’ carne beira a ingenuidade, já que o sabor é independente do formato e da origem. O sabor defumado da carne, soja ou glútem, bem como embutidos, vem da fumaça, basicamente. É um método antigo e era aplicado até mesmo ao chá na China.

É preciso deixar de endeusar a carne e esse é um erro que até mesmo veganos cometem quando se recusam a comer coisas veganas, só porque se parecem com carne. Não se desapegaram, é preciso desencanar. Desprezam a criatividade dos chefs, os avanços da indústria e mercado, que criam sabores atribuídos erroneamente à carne. Ficar implicando porque algo parece ovo ou lembra o gosto de queijo é preciosismo, pois animais estão morrendo de verdade e as pessoas os comem muito mais por vício, lobby e imposição social. É um resquício da visão especista achar que livrando-se da forma, liberta-se do conteúdo.

Os alimentos práticos foram criados para o dia a dia. A salsicha, por exemplo, era feita de tripas de animais. Foi substituída por celulose vegetal. Os veganos substituem seu conteúdo por produtos vegetais. A salsicha tem praticidade semelhante à banana, uma fruta que nem precisa ser lavada e pode ser consumida em qualquer parte. O leite vegetal, o (‘milk’)-shake vegetal, o pão, tudo é prático e não queremos deixar de comê-los. Queremos deixar de explorar os animais.

Toda a alimentação vegana corresponde à alimentação que ‘lá fora’ é de origem animal. A pizza vegana, é uma versão da pizza que, comumente é feita com ingredientes de origem animal. Um cogumelo (Reino Fungi) que, botanicamente falando, não é nem do Reino Vegetal nem do Reino Animal, tem sabores que lembram carnes na maior parte das vezes. Ele é saboroso e nutritivo. Até mesmo um inocente azeite aromático que eu preparo em casa com alho e manjericão, tem gosto de linguiça! Pois a base do tempero da linguiça é praticamente a mesma.

Algumas coisas, ao contrário, eram originalmente vegetais, e foram adaptadas à culinária tradicional por misturas culturais e as pessoas nem sabem, mas se recusam a comer a versão vegana. Há sabores únicos na culinária vegana, porém, pode-se criar pratos comuns, como os que lembram as coisas da infância, trazendo para perto da filosofia vegana, muitas pessoas.

O argumento de que a carne é nojenta não coloca em dúvida o ato de comer ou não animais. Questões particulares não se aplicam ao todo. A carne e derivados de origem animal, ovos, leite, queijo, couros-peles, são símbolos de exploração, porém atribuir nojo como o único argumento para o não consumo de carne não sensibiliza quem come carne e não sente nojo algum, pois este não foi o motivo que fez a maioria das pessoas a parar de comer carne. Nem mesmo o argumento de que ela faz mal para a saúde é convincente, já que há pessoas saudáveis a consumir animais.

O incômodo para elas é de outra natureza. Há pesquisas aos montes comprovando a longevidade e saúde dos veganos, do nascimento à velhice. Mas o ser vegano é um estilo de vida baseado na ética, pois somos contrários à exploração de animais ‘felizes’ e às ditas galinhas saudáveis e vacas verdes, já que é o mesmo que bater com permissão ou com anestesia.

Não há um selo que consagra à pecuária e à carne e derivados de origem animal a detenção dos direitos sobre os sabores, formatos e até mesmo os nomes para alimentos e para o nosso paladar. Então é preciso acordar para o fato de que não existe patente requerida para o sabor.

Publicado originalmente em http://www.anda.jor.br/02/09/2014/cara-carne.

2 de setembro de 2014

A saudade do que não vivemos

De LPs antigos e trenzinhos a penteadeiras e cristaleiras, o Caminho dos Antiquários, no Centro Histórico de Porto Alegre, literalmente põe na rua o acervo de diversas lojas de antiguidades. Aos sábados de manhã, a quadra onde se concentram muitos desses estabelecimentos - rua Marechal Floriano, entre Fernando Machado e Demétrio Ribeiro - é fechada para automóveis. Os lojistas instalam algumas de suas preciosiddes no meio da via, sob o sol matutino. Muito brilho e cuidado, em peças que promovem uma irresistível saudade de tempos que - não - vivemos.

Ou 'acho bonito na casa dos outros'.







Final de tarde na Mostardeiro


31 de agosto de 2014

'Candidatos pelos animais': saiba em quem (não) votar

Foto: RSantini


Não, não preciso dizer que esta é a eleição com o maior número de candidatos 'pelos animais' que já vi. Entre idealistas e picaretas, vários são os que aparecem no santinho de papel, ou eletrônico, abraçados a um cachorro. Claro, ninguém abraçaria um porco, uma cochonilha ou uma galinha. Iria provocar risos entre a patuleia, a mesma que é obrigada a apresentar documento e apertar uns botões em uma urna. Ganha um feriado, e assim se faz uma democracia, em tese.

O fato é que um expressivo número de franco-atiradores, digo, candidatos, descobriram o nicho 'animais' - e, obviamente, não falo do setor pecuarista, que já descobriu há muito o nicho 'animais', mas com um sabor diferente, digamos. Há ativistas, protetores/socorristas, vegetarianos e veganos que tornaram pública sua afinidade com os não-humanos na intenção de ganhar simpatia do eleitorado, essa massa disforme que muitas vezes age como lemingues, outras vezes como corais, búfalos ou formigas, e outras vezes como nenhuma das opções anteriores.

No Brasil é obrigatório votar, exceto as exceções, então quem está dentro da causa animal terá um leque de opções vinculadas a seu pensamento para saber em quem depositar seu voto. Este é um farsante? Aquele já fez projeto contra os animais, e agora vi no Facebook uma foto dele com cachorro? Aquela tem trajetória reconhecida na causa, esta é mais ou menos? Que todos tenhamos interesse em descobrir essas respostas, pois serão quatro anos, desdobráveis em outros, com alguém ajudando na defesa, ou ajudando a dinamitar nossas já frágeis estruturas de defesa dos animais não-humanos.

O 'candidato conversinha'.

Quer dizer, é necessário dar uma peneirada geral, uma pesquisada básica - Google não tem taxímetro - e mesmo o diálogo com outros interessados, para não dar um voto a um oportunista 'dos bichinhos' e, ao mesmo tempo, deixar de votar em alguém que tem o culhão necessário para adentrar na política, sabendo que lá dentro a briga é de foice afiada.

Porque também não podemos cair no mantra boca-suja de dizer 'odeio política'. Quem odeia política deve se mudar para a Lua ou para Marte, pois mesmo no meio do mato a política lhe alcançará no dia a dia. Política não é o horário eleitoral na televisão, como já ouvi de alguns eternos desinformados. Não podemos ser ingênuos. O que vestimos, por onde andamos, nossas 'escolhas', dinheiro, saúde, segurança, calçada suja, carroça, 'tadinhas das crianças passando fome', etc, tudo está debaixo desse guarda-chuva chamado política. Que não se resume 'àquela roubalheira lá em Brasília', nem em 'odeio PT' ou 'odeio quem odeia o PT'.

Não podemos ser tão simplórios na maneira de ver, pois há quem realmente faz, fez e/ou fará ações dignas em prol dos animais, quais sejam. Ainda há muito o que fazer, e parece até clichê dizer que é o povo quem escolhe seus líderes - embora às vezes o cenário político pareça uma novela, que conta conosco como meros telespectadores. Ressalto, pois ouço gente dizer que está farto da política, como se fosse um corpo vivo à parte, e não um acordo entre todos. Se há problemas, revejamos esse acordo, ou pensemos porque a maioria tende à apatia moral, à bundamolice ideológica, ao conformismo de quem se abstém de ajudar a preparar o bolo que, lá adiante, terá que comer, também.

O voto pelas minorias humanas tem se solidificado no Legislativo. Falta agora botar, lá dentro, gente raçuda que vai afiar sua foice em prol dos animais. Mas os animais não têm título eleitoral, ainda que submissos, também, aos ditames da política. Você vai votar por eles, ou contra?

Elite da Tropa: a palavra ainda choca mais que a imagem

Quem viu o filme 'Tropa de Elite' acompanhou um fiapo do livro 'Elite da Tropa', escrito pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares e pelos ex-Bope André Batista e Rodrigo Pimentel. Se o filme é pesado, o livro é brutal, chocante e, às vezes, revoltante. Violência desmedida, crueldade, violações de direitos humanos, represálias, abuso de poder, morte de animais, tráfico de influências, corrupção e banalização da morte. Foi das obras que eu mais rapidamente devorei, mesmo desconfortável com muitas das passagens nele contidas, e torcendo para não chegar nunca ao final. Esqueça o maniqueísmo mocinho-bandido, seja qual for o lado. É uma realidade repulsiva e que co-habita com o dia a dia do restante da sociedade, que muitas ezes nem imagina o que se passa nos quartéis, nos morros, e nas salas fechadas do crime e da polícia.

Esta à venda em nossa eshop um exemplar novo, edição grande da Objetivas, 318 paginas, ótimo estado de conservação, com frete grátis para todo o Brasil, em http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-585035524-elite-da-tropa-bope-policia-trafico-crime-novo-frete-gratis-_JM.

29 de agosto de 2014

'Cream cheese' vegano ainda está em desenvolvimento

Esta saborosa pizza traz o 'cream cheese' totalmente vegetal que desenvolvo. Ainda está em fase de testes. De resto, usei champignon, milho, cebola, chia, molho de tomate e orégano. Ainda falta melhorar o simulacro de queijo. Tenho usado levedura de cerveja, batata, soja e especiarias, mas o ponto certo está longe de ser encontrado. A linhaça já fez  'puxa-puxa', mas parece não fazer mais diferença. Quanto ao sabor, está quase lá.


Da série 'Poesia em metro':

POSTE

eu só peço salvação, se não for incômodo
ou eu me mudo para outro cômodo da mesma casa
e aí crio asas e vôo
creio que posso planar, se subir bem alto (como num sonho)
impulsionado por um foguete ou por um salto

eu só peço caridade, se não for desfeita
ou eu me mudo para outra cidade onde haja a mesma rua, mesma casa, o mesmo poste

creio que posso cultivar lírios de cemitério
na matéria fértil do meu cérebro

eu só peço paz & amor, se não for antiquado
creio que posso imitar um poste
tipo ficar parado
(na esquina dessas ruas que eu não consigo atravessar)
sem ninguém me notar
basta cruzar os dedos ou criar asas, ou subir bem alto
ou dar um salto.

26 de agosto de 2014

Um jardim suspenso em meio ao concreto

Este belo jardim, que lembra até um pequeno campo de golfe, é nada menos que o teto da loja C&A, na Andradas. Quem passa em frente ao estabelecimento nem imagina que, logo acima, um oásis respira em meio ao brutal concreto de dezenas de edifícios, colados um no outro. Silenciosamente, um jardineiro se dedica a seu ofício, alheio às centas de janelas de escritórios que o rodeiam.

O medo das ideias que ainda não são aceitas na sala de estar

Haja paciência para ouvir comentários-carimbo como 'o fulano é vegano mas não é chato, não tenta converter os outros'. Já existe a ideia de que andam os veganos no modo 'Seita Moon on', abordando estranhos no ônibus e sem fechar a matraca. Se bem que a ideia parece interessante.

E exige-se um mutismo em relação ao que se acredita, como se quem escova os dentes não pudesse avisar/reclamar/apontar/queixar-se de quem está com mau hálito. Devemos todos ser veganos pela anulação de si, em silêncio obsequioso e caminhando sem fazer barulho, para não incomodar os vizinhos? Devemos primar pela posição de abster-se, e não de acender pavios no pensamento de quem está próximo? Devemos 'respeitar para sermos respeitados', uma frase que já veio com defeito de fábrica mas ninguém reclama, nem se dá o trabalho de ler as instruções - vamos respeitar o errado, o equivocado, o atrapalhado, o mal intencionado, o sádico, o duas-caras, o desinformado, o ignorante, o inculto, o voluntário no erro - somente para ganharmos o card mágico 'Parabéns, agora você pode ser respeitado também'?

Como se a humildade, submissão e conformismo de joelhos fosse algo tão louvável que seria bom que os outros tivessem - não eu.

Historicamente, o que foi regra foi pisoteado tempos depois, o que era proibido virou norma, o que era oba-oba passou a ser crime. E ninguém contesta isso, nem tem saudosismo das cavernas, da Idade Média ou das épocas que escravos eram patrimônio. Mas falar 'veganis…' perto de algumas pessoas resulta em uma reação de olhos arregalados - metaforicamente falando, geralmente - e de espanto ao apanharem-se tão próximas de alguém subversivo, que luta pela implantação de direitos que não os seus, vejam só. Já ouvi contestações de que a ingestão de carne e derivados dos animais jamais poderá ser proibida por decreto.

Como se os decretos - agora genericamente falando, ok? - não tivessem encerrado a existência legal de tanta coisa nefasta que hoje qualquer um acha um absurdo. Que qualquer pessoa de bom senso se pergunta como foi possível tolerar, aceitar enquanto se assobiava, outorgar eticamente e lavrar em documentos. Esse 'decreto' que muitos temem nada mais é que o desenrolar do tapete da história, e a ponta do chicote vai estalar somente nos desavisados, nos que creem nos conselhos de comadre e acham que 'como está, fica'.

Dá para se deliciar com o leve desespero de quem desdenha dos direitos animais, assegurado que está no conceito de que chegamos a um último estágio, e mudanças significativas foram as que ocorreram no passado. Não agora. Sem ver que as ideias rastejam pelos rodapés da casa até serem aceitas na sala de estar.