19 de fevereiro de 2015

CONTO: Back in black

por Marcio de Almeida Bueno

Tudo acontecera em pouco tempo. Ele começou a ver muita televisão, pois não tinha muito o que fazer. Um dia, notou que o rapaz na TV falava diretamente para ele, e o que dizia entrava de maneira muito agradável nos seus ouvidos. Como se estivesse ouvindo sua música favorita. E o rapaz continuava falando. Inicialmente era um comercial bobo de sabão em pó, mas o cara abandonou o texto decorado e começou a falar bem próximo da câmera, em um tom pausado e agradável. E contou muita coisa da vida do nosso herói, explicando porque ele era tão rejeitado, por que as garotas nunca se aproximaram dele, porque ninguém nunca lhe dava bom-dia. Disse também para estar atento à programação. E então o comercial terminou. Aqueles 30 segundos pareceram durar uma hora. Aí ele começou a pensar em tudo o que o moço da TV falara, e em como ele estava certo em tudo que dissera. Como é que ele sabia de tudo? Como é que ele tinha explicação para tudo aquilo? Todas aquelas passagens da sua vida, todos os fatos tristes que passara e para os quais nunca achara explicação. Como era bom Ter um conselheiro particular, alguém que se dispusera a ajudá-lo. E que não o mandava embora após 50 minutos de consulta. E o melhor de tudo era que só ele sabia que aquilo tudo se destinava a ele, sigilo total. Que bom.

(...)

Ela acordou como sempre, escovou os dentes como sempre, tomou o ônibus como sempre etc.

(...)

Então ele começou a prestar muita atenção na programação da televisão. Porque às vezes o rapaz aparecia no meio de uma novela, filme, programa de auditório, comercial de cigarro. Tudo estava normal até que o rapaz aparecia em cena, aproximava-se da câmera e dizia aquelas coisas tão bonitas. Os outrso atores nem notavam. O rapaz (ele não tinha nome, porra?) voltava a falar do porquê de tantos problemas na vida, e o que fazer para solucioná-los.

Um dia, o rapaz apareceu no meio de um filme de romanos e disse:

-Você é Deus. Corte esse cabelo e aja com tal. Não pense na destruição de todo o Universo senão o Universo se destruirá. Faça alguma coisa. Mostre ao mundo que

Aí a TV saiu do ar. Mas ele já sabia o que fazer. Cortou um pouco do cabelo com o aparelho de barbear que achara na rua, um dia. Enrolou-se no lençol e saiu à rua. Deu a volta no quarteirão e voltou para casa.

Ficou sentado no sofá, fumando e olhando para o passarinho morto na gaiola pendurada junto à janela. O passarinho morrera há duas semanas. ‘Por que será que ele não come a ração que eu coloco todos os dias?’, perguntava-se. Resolveu ouvir um pouco de música. Botou para tocar sua preferida, ‘Back In Black’, do AC/DC. Aqueles riffs são perfeitos. O vocalista Brian Johnson tinha voz de patolino e... algo estranho: a letra quase não mudava. ‘Back in black/ black is back/ back’n’back/ Beck is black/ back in neck/ crack is blank/ bank is clerk, etc’. o deveria estar com defeito. Então, uma súbita vontade de sair. Colocou um capote por cima do lençol que usava, já que estava ficando meio frio. Desceu as eternas escadas velhas do seu prédio e ficou perambulando por algumas horas nas ruas, até embarcar em um ônibus – sem destino certo. Acabou desembarcando em um bairro distante do seu, e na primeira esquina recolheu um papel novinho e colorido do chão. Era um convite para uma festa. Aliás, a festa era naquela noite e ficava ali perto. Alguém que estava indo deve ter deixado cair o ingresso.

Na entrada da festa, uma fila enorme com muita gente estranha: cabelos coloridos, roupas e adereços bizarros – clubbers. ‘Típicos pequeno-burgueses rebeldes’, pensou. Uma garota tinha uma argola que transpassava a bochecha (lembrou-se de um conto de Charles Bukowski).

-Vem cá, isso não dói não? – perguntou.

-Ih, qualé... aqui fora não tem clima pra cantada, lá dentro talvez... – desdenhou a moça.

Depois de uma boa espera (até parecia que a curtição mesmo era estar na fila), conseguiu chegar à porta e apresentar o convite ao porteiro, um crioulo grande e forte.

-Qualé o nome? – perguntou o porteiro, sem tirar os olhos de uma lista de nomes.

-Deus – respondeu, firme.

O crioulo sacudiu a cabeça, já acostumado com coisas do tipo.

-Teu nome não tá na lista. É Deus, mesmo? Não te chamam de outro nome, não?

-‘Aquele que tudo vê’

-Tá certo, amigo, mas esse também não tem. Vamos fazer o seguinte: eu tenho dez anos de casa e sei quando o cara quer entrar de safado ou não. Pela tua cara tu deve ser mesmo um convidado. Vai ver que teu nome tá na lista VIP, que não tá comigo. Tu deve ser um desses cantores de rock, né? Acho que já vi teu clip na MTV... pode entrá, viu?

(...)

Ela também estava na tal festa, e se interessou por aquele cara com um lençol por baixo do capote. Barba por fazer, cabelo com corte assimétrico, parecia um Mickey Rourke mais intelectual. E ela adorava caras tipo Mickey Rourke. Com tanta gente estranha naquele lugar ele nem seria notado, mas ela notou e se aproximou para conversar. Acabaram indo para o apartamento dele.

(...)

Isso era tudo de que se lembrava. Continuava deitado em sua cama, sem lençóis. Acendeu um cigarro. Pensava na mulher morta, agora assassinada (ou apenas esfaqueada pós-morte) por ele. Resolveu voltar para conferir, já que há muito tempo que não podia confiar nos próprios olhos, ou na própria memória, não tinha certeza. O fato é que voltou à sala inúmeras vezes, e em cada vez a mulher estava diferente: morta, sentada no sofá vendo TV, dormindo, agonizando. Voltou à sala outras vezes, e, na vez em que a mulher estava sentada vendo TV, decidiu aproximar-se.

-Bem underground o teu apê – disse ela. – Até a sujeira parece de verdade. Bem produzido. Só achei o canário morto um tanto kitsch, meio Joseph Beuyes.

-Não, não é canário, é passarinho. O nome dele é J.F.K. E acho que ele não tá morto.

-A-hã – disse ela, desinteressada. – Que tal ouvirmos um som?

-Meu som tá quebrado

-Tu não tem algum filme pra vermos no vídeo?

-Filme, só o ‘Cinema Falado’ do Caetano, mas gstaria de te mostrar umas gravações que fiz da TV – disse ele, enquanto colocava a fita na posição certa.

A fita era uma colagem caótica de imagens, lembrava ‘Revolution 9’ dos Beatles. Ele assistia fascinado, com um sorriso infantil, mas ela estava achando horrível.

-É, tem um conhecido meu que também faz vídeo, ele é videomaker, só que usa computação gráfica e

-Ele está sempre aí – ele interrompeu – gravei só para poder ver a qualquer hora.

-Ele quem?

-O moço da TV. Ele aparece para me dar conselhos. Mas só eu sei que os conselhos são para mim – disse ele, fanático, eufórico.

-Tu quer dizer que nessa fita aí tem um cara falando só pra ti? – ela perguntou, já transtornada.

-Pois é, ele tem sido meu melhor amigo. Estou chamando ele J.F.K.

-J.F.K. não era o nome do canário morto?! – perguntou ela, gritando.

-Já falei, não é canário: é passarinho. E não está morto – respondeu, enquanto acendia outro cigarro e pegava a faca.

25 de janeiro de 2015

OVNIs sobre a Nilo Peçanha no dia 23 de janeiro, 19h


Na rua Luzitânia, uma casa-arte


CONTO: "-Hardcore, baby"

por Marcio de Almeida Bueno

‘Certo, certo, certo’ – ele disse, enquanto carregava o revólver. Foi até a janela e mirou na multidão, lá embaixo. Atirou tipo bingo. Alguém caiu no chão. ‘Um a menos para comer a minha mulher’. Ela, encolhida num canto da sala, começou a chorar e gritar:

-Pare!! Isso não vai resolver o nosso problema!!

-Calaboca sua cadela! – respondeu, enquanto esmurrava a mulher. Só parou quando ela parecia desmaiada. Arrastou-a apartamento a fora, dobrando à direita no corredor e depois à esquerda. Colocou a mulher na salinha onde ficava o lixo. Na verdade era uma escada com porta corta-fogo, mas acabara virando lixeira. ‘Espero que o zelador não resolva te foder, se vier buscar o lixo e tu ainda estiver desmaiada’. Desceu as escadas até o térreo e cumprimentou o zelador, que tinha hálito de cárie podre. O aluguel podia ser barato, mas o hálito parecia vir do ânus do cara. Talvez viesse.

Já na rua, viu o aglomerado de pessoas ao redor do recém-morto. Alguém chamara a polícia. Chegou perto, e, distraído, perguntou a um dos muitos curiosos:

-Que que deu?

-Mataro um home. (...) Parece que foi um preto, ‘ssaltô ele, matô ele e fugiu correno. Esse centro tá cada veiz peior. A gente que trabalha num pode nem saí que morre. Esses dia

Largou o outro no meio da frase e saiu em passo acelerado. Imerso em pensamentos. ‘Preciso fazer algo. Grana. Me mexer. Já resolvi o problema com aquela vaca. Puta. Nada que umas balas de revólver não possam resolver. (...) Puta merda, aquele flagra que eu dei nela tá me excitado. Aquele coitado metendo nela em cima do sofá, quando eu abri a porta. Aí eu meti cinco balas nele. Agora ele tá guardado no banheiro. Grana. Preciso me mexer.’

Já estava há umas dez quadras do apartamento quando pensou que aquela movimentação toda em frente ao seu prédio poderia facilitar a desova do corpo do ex-Ricardão. Voltou. A aglomeração estava maior, viera uma ambulância, ou rabecão do IML, não podia ver direito. Entrou no seu prédio. O zelador estava na porta, espiando o tumulto.

-Que que é o quê, lá? – perguntou o zelador, sem olhar para ele.

-Um desses camelôs que fazem truques, e tal. Acho que é a Cobra Catarina.

Enquanto subia as escadas pensava na resposta que recém havia dado. Sempre fora assim durante a vida inteira. Ficava contente quando conseguia pensar rápido e dar uma resposta infame, com a cara mais séria da mundo.

Chegou no apartemento. Amulher esperava-o sentada no sofá, fumando. O rosto inchado e com hematomas. Tinha feito um bom serviço.

-A gente tem que conversar. – ela disse, com o mesmo olhar do dia do casamento.

(...)

-O que que a gente via fazer com a porra desse corpo? – ele perguntou, já sentado e de chinelos.

-Calma. – ela respondeu, cúmplice – O carro dele está lá na garagem. As chaves estão aqui.

Mostrou as chaves. Ele vicou olhando para as chaves. Sempre achara um molho de chaves algo como um rosto, diferente, pessoal, intransferível e sem outro igual. As chaves dos outros eram sempre diferentes, argolas, chaveirinho de sei-lá-que-firma.

-Ele veio de carro? Porra.

(...)

Carregaram o corpo até a garagem e colocaram no porta-malas. Embarcaram no veículo e saíram, sem direção exata.

-E daí, pr’onde vamos? – ele perguntou, automaticamente. Trabalhara como motorista de táxi por 7 anos.

-Acho melhor esquecer o carro em algum lugar, com o corpo. A gente podia largar num sítio, colocar uma lona em cima e dizer byebye, so long, farewell – ela disse, cantando sorrindo.

‘...ou jogar o carro na valeta e tocar fogo’ – ele respondeu mentalmente, enquanto fuçava no painel do carro. Achara uma fita K7. Metera no tape-deck. Blues. Um preto cantava ‘ma woman’s ballin’nother man... ‘n ‘s not da first time, baby... dis ma blues o’ number ten’.

(...)

Voltaram de ônibus desse sítio nos arredores da cidade.

-Tu tá legal? – ele perguntou, com ternura.

-A-hã.

(...)

Já em casa, conversavam deitados na cama, luz apagada.

-E aquele cara que tu matou, na rua?- ela perguntou, um pouco nervosa.

-Foda-se. Como vão saber que fui eu? Tem milhares de janelas circulando esse claçadão. Devia ser um pobre-coitado que estava merecendo castigo, ou algo assim. Posso Ter feito justiça. Uma bondade. Acho que vou começar a fazer isso mais freqüentemente – comentou irônico.

-Como será que era a vida dele? Seus amores,

-(Interrompendo) Meio brocha. Pau pequeno. Começando a ficar careca. Bigode. Separou-se da mulher e foi morar com uma tia. Tinha vontade de comer a tia. Ficava num boteco até tarde. Roncava. Trabalhava de sei-lá-o-quê. (...) Legal aquela fitinha de blues. Guardei ela comigo, tipo souvenir.

Nesse instante começaram a ouvir ruídos abafados vindo do apto ao lado. Os ruídos não cessavam. Ele se interessou, levantou e foi escutar na parede com um copo. A mulher, sonolenta, dizia para ele não dar bola e ir dormir. Mas ele ficou ouvindo. A conversa era estranha. Gemidos. Resolveu espiar. Usou um cabo de vassoura com um espelho colocado estrategicamente na ponta.

Conseguia ver o casal vizinho transando. Mas... sexo bizarro. Trajes, objetos. A mulher penetrava o marido com um pênis de plástico preto colocado na cintura. Depois, restos de comida usados de maneira inimaginável. Ele se sentiu até nauseado, e parou de espiar.

Olhou para a própria mulher na cama, já dormindo. Lembrou-se do flagra naquela tarde. Ficou excitado. De repente, lembrou-se do revólver. Não sabia dizer onde havia deixado. No carro? Pensou em acordar a mulher, mas raciocinou que ela podia ter pego a arma, para matá-lo. Lembrou-se do quartinho do lixo, no corredor. Foi até lá e achou o revólver num canto. O lixo não havia sido recolhido. Resolveu espiar o lixo dos vizinhos que transavam. Podia achar algum apetrecho ou umas revistinhas. Abriu o saco e achou várias embalagens de colírio. Será que eles são uns hippies velhos? ‘Maconha só me dá sono’ – pensou. Voltou ao apartamento, escondeu a arma dentro da caixa-d’água do vaso sanitário e foi deitar, imerso em pensamentos, até cair no sono.

Na noite seguinte, foi novamente espiar as atividades dos vizinhos. A esposa estava vestida de noiva e marido de noivo, com fraque e tudo. Estavam representando alguma nova fantasia. ‘Enfim sós: nossa lua-de-mel’, ele disse. ‘Oh, querido’, ela respondeu, apaixonada. Eis que o ‘noivo’ tira rapidamente seu traje e exibe seu corpo nu. Um piercing em cada mamilo, unidos por uma corrente. Uma argola colocada no prepúcio, impedindo a saída da glande. Grilhões por todo o corpo. Agulhas colocadas aleatoriamente, paralelas ao corpo, de maneira a não aparecerem por baixo da roupa.

-O que é isso?! – gritou a ‘noiva’, maliciosamente ingênua.

-Hardcore, baby. – respondeu o marido, arrancando as roupas dela e iniciando novamente as atividades.

Ele continuava espiando o casal. Parou por um momento e foi buscar a máquina fotográfica. Debruçando-se para fora da janela, conseguiu bater várias fotos, arriscando-se a cair lá embaixo. Revelou as fotos no seu mini-estúdio. Estivera trabalhando de fotógrafo policial para um jornal sensacionalista. Saiu do apto levando as fotos, bateu na porta do vizinho. O vizinho demorou bastante mas acabou atendendo a porta. Estava encharcado de suor, com um pijama seco que deve ter sido colocado às pressas.

-Boa noite.

-Boa noite. – respondeu o vizinho

-Eu trabalho para o jornal ____________ e vim pedir para o senhor escolher qual destas fotos é a melhor para a capa da edição de amanhã. – falou seco, mostrando as fotos. O vizinho olhou apavorado e puxou-o para dentro.

-Como é que tu conseguiu isso?! – perguntou o vizinho, trêmulo.

-As paredes têm ouvidos e as janelas têm olhos. – respondeu firme. Notou que o vizinho tinha vermelhidão e inchaço nos olhos. Fumou um baseado, no mínimo. Apareceu a esposa, seminua, para ver o que estava acontecendo. Ela também tinha os olhos estranhos. Também devia fazer parte da esquadrilha da fumaça, hê-hê. O vizinho mostrou as fotos para a esposa, dizendo:

-Acho que ele quer algo para não mandar publicar essas fotos.

A esposa do vizinho olhou ele de cima a baixo, sensualmente, e disse:

-Bom, tu não gostaria de participar das nossas sessões... como pagamento?

-Desculpe, dona – disse ele, cortando – Sexo para mim é o mesmo que os meus pais faziam, só que mais rápido. Quero grana.

-Grana. – ela repetiu, como que para ter certeza.

Os vizinhos se entreolharam, até que o marido falou:

-A gente não tem grana. Pelo menos não no momento. Mas podemos pagar com uma coisa mais valiosa.

Foi até uma gaveta e trouxe um pedacinho de papel plastificado e um colírio. No meio do papel plastificado havia um pontinho lilás minúsculo, como uma cabeça de alfinete.

-Me desculpe, mas não vou tomar ácido. – recusou, irritado – a única vez que tomei foi na praia e acordei dois dias depois pelado dentro de uma viatura.

-Não, esta é uma droga nova – disse calmamente o vizinho. Parecia um crente falando de Jesus – Chama-se Little Wing, em homenagem ao Jimi hendrix.

-Nunca ouvi.

-Tu deve colocar o ponto lilás na mucosa do olho, deixando dissolver. Esta dose faz parte da primeira e única remessa existente. Por enquanto. O efeito colateral é uma irritação nos olhos. Use o colírios.

-E eu pensando que vocês eram uns maconheiros tarados de merda.

Ele saiu da casa dos vizinhos, carregando somente o ‘Little Wing’. ‘Que idiotas’, pensou, ‘é claro que vou publicar as fotos, tenho mais cópias comigo.’

Entrou no seu apartamento. A mulher dormia. Aquela vaca. Tirou a roupa de sentou no sofá, no escuro, escutando os gemidos dos vizinhos do lado. Colocou o ponto lilás no olho.

(...)

Na manhã do dia seguinte a mulher acordou e encontrou ele sentado no sofá, olhos vidrados. Ela perguntou, entre curiosa e sonolenta:

-O que é que tu fez aí a noite inteira? Não veio dormir?

-"Eu vi Deus" – ele respondeu, como se estivesse lendo ou recitando as palavras. Não piscou nem olhou para ela – "Ele tinha acabado de se suicidar, com um tiro na cabeça. Não sei o que o levou a fazer isso, mas acho que não era grande coisa. Nada que uma bala de revólver não pudesse resolver."

15 de janeiro de 2015

A calma zen da mais bela praça de Porto Alegre


Sem nenhuma dúvida, a praça mais bonita de Porto Alegre é a Praça Japão, entre a Plinio Brasil Milano e o IAPI. O visitante parece estar entrando em um sonho, pois sai da zoeira automotiva e entra em um lugar aprazível, absurdamente calmo - na tradição oriental, com direito a cachoeira para refrescar os pés. Poucos frequentam o local.

Porto Alegre nas pegadas: a fonte da Carlos Trein Filho

Em plena calçada da rua Carlos Trein Filho, próximo à Plínio Brasil Milano, há uma escadaria que leva a uma fonte de água natural. O pessoal passa lá para beber - dizerm que tem gosto de água de poço, fresquinha - ou para levar para casa, em galões. Recentemente a Prefeitura colocou uma placa dizendo que se tratava de água imprópria para consumo, mas... ninguém deu muita bola.

Ainda sobre as obras da Copa

Na esquina da Cristóvão Colombo com a Dom Pedro II, segue a buraqueira.

14 de janeiro de 2015

CONTO: Grãozinhos de milho

por Marcio de Almeida Bueno

Eu andava numa época especialmente ruim, tinha tentado fazer uma exposição com as minhas obras mas só gastei meu último cartão telefônico. Não arrumava emprego porque era muito feio (ou as minhas roupas é que são fedidas?), sobrevivia vendendo nos sebos algumas raridades da minha coleção de vinil. Sabe quanto esses lugares pagam por um "Obscured By Clouds" original do Pink Floyd? Um café e um pão de queijo mal requentado, eu sempre peço para a balconista NÃO esquentar no microondas. -Qué qu'esquente? -Não, não precisa, eu... Ela JÁ colocou no microondas e apertou o "60 segundos", irreversível como a venda do meu Pink Floyd. Ela só perguntou por, digamos, "educação". A minha resposta seria óbvia, claro, quem comeria um pão de queijo não aquecido? -Não precisa esquentar o... -Não, mas tá frio - ela responde enquanto olha o movimento na rua. Eu já notei que algumas pessoas que trabalham atrás de um balcão têm o costume de falar olhando por cima do ombro do freguês, como se houvesse algo realmente interessante acontecendo na calçada em frente. Aquela espelunca. Eu havia rodado todo o centro para achar o lugar que tivesse a combinação café + pão de queijo mais barata. Os centavos faziam diferença, meu Pink Floyd nem valera tanta coisa. -Olha, eu quero dizer que fica frio mesmo após esses 60 segundos, dentro continua gelado e... -49! 49!... 50! - ela já estava chamando a ficha seguinte. Minha última frase ficou planando em câmera lenta. Se eu tivesse dito "foda-se sua puta, volte para a periferia" ela não teria nem titubeado na hora de chamar a ficha 49. E a 50. Pensei na exposição que não conseguia organizar. Minhas obras têm..., quer dizer, EU chamo de obra, mas muitos chamam de entulho. Reconheço que muita coisa é entulho ou qualquer coisa abaixo disso, feio e inútil. Fico me culpando e achando que o que faço não tem valor nenhum, algumas coisas até mesmo cheiram mal. Eu adquiri o costume de passar nas lixeiras e recolher algum objeto mais ou menos inteiro, levo pra casa e faço alguma coisa em cima. Abajures, persianas, azulejos, televisão sem o tubo, tudo quebrado mas mais ou menos inteiro, nada desfigurado como objeto. Até uma privada já encontrei no lixo. Justamente essa privada me deu mais problemas que qualquer outra coisa. Carreguei até em casa aquele trambolho, estava intacto, eu passava e as pessoas olhavam, os velhos olhavam, as crianças de colo olhavam, até os cachorros olhavam, dizendo "alguém carregando um vaso na rua, he he". Eu fazia cara de ocupado, como se estivesse sendo pago para carregar aquele vaso, tipo um pedreiro trabalhando num banheiro, o cara tá sendo pago pra fazer aquilo, eu fazia cara de quem ESTAVA sendo pago. Mas fazia muito tempo que não fazia algo pelo qual alguém me pagasse, e nem recebia por nada que fizesse. Estava numa gripe daquelas, ou melhor, a gripe tinha passado mas eu ainda estava todo entupido, passava dias assoando o nariz, saía um troço cinzento, sempre ouvira dizer que quando estava nessa cor já estava tudo curado. Pelo menos em termos de catarro eu fazia a coisa certa. E nem precisava me esforçar muito. Daí que eu carregava aquele vaso branco, fazendo cara de compenetrado e me segurando para não parar e assoar o nariz. Cheguei em casa e coloquei o troço bem no meio da sala, ou no meio do apartamento, o que dá no mesmo. Fiquei longos instantes pensando o que fazer com aquilo, enquanto recuperava o fôlego. Tipo o cara que dá uma corridinha no parque e aí para pra tomar uma água e fica de olho arregalado, enquanto a respiração volta ao normal. Ninguém faz um esforço e depois já faz outra coisa logo em seguida, o cara sempre fica meio adrenalinado e não sabe o que fazer direito, fica olhando para todos os lados e tal. Eu fiquei olhando para o vaso. Pensei em colocar uma seta apontando para o buraco, depois pensei em pintar de preto e escrever "Fusca". Acho que ninguém entenderia. Decidi serrar na horizontal e colocar algo no meio, como se fosse um sanduíche. Claro que não consegui serrar porque eu não tinha nenhuma ferramenta decente, nem tinha idéia de como serrar uma peça feita de louça. Acabei quebrando, apenas, vi o sifão interno, cheio de... MERDA! Putz! O troço estava entupido, uma folha de jornal estava enfiada dentro e não deixava que a merda passasse, o dono do vaso devia ter se limpado com o jornal e depois colocou dentro e tentou puxar a descarga e o troço entupiu e ele teve que jogar fora e tal, e eu não senti cheiro nenhum porque estava com a droga do nariz entupido! Talvez fosse por isso que todo mundo me olhara na rua. Até os cachorros. Aquele cocô escuro, meio velho e dissolvido, caiu bem no meio da minha sala, eu VIA o cheiro saindo dele. Quem quer que fosse o responsável havia feito um belo serviço, era um senhor cocô. Acho que minha capacidade artística estava mais voltada a perceber beleza plástica e design no que fosse horrendo, seja uma bosta, um vômito, um pé podre de mendigo, a baba e a pele sebosa de um retardado mental. E isso me perseguia, certamente eu preferia me satisfazer contemplando um quadro de paisagem, um carro novo ou um par de olhos do que uma bosta anônima. No meio do meu apartamento. E a idéia de ter que me livrar daquilo, ter que limpar o chão etc dava uma puta preguiça que me fazia contemplar mais ainda a coisa, seus contornos e grãozinhos de milho. Ainda estou para ver uma bosta de calçada que não tenha alguns grãozinhos de milho. Assim como nunca vi um modess limpo jogado na rua (poderia ter caído da sacola de compras, sei lá)‚ sempre é usado, com as colorações e tonalidades vermelhas mais cremosas possíveis, me admira que alguém jogue fora de forma tão pública uma coisa tão íntima. "-Eh, osvaldo, pára o carro um pouco" "O quê?" "Eu disse pare o carro" "Parar o carro pra quê, mulher?" "Eu tenho que... ir no banheiro" "Ah, e tem banheiro na calçada agora?" "Eu só quero trocar o absorvente" "Certo, no meio da rua? Não é hora de parar nessa parte da cidade" "Tá, reduz que eu vou só vou jogar fora" "Pronto, reduzi, vai" "Não, tem um velho olhando" "Pronto, passamos, aqui tá... CREDO, MULHER! QUE NOJO!" "..." "Meu Deus! Eu nunca pensei que..." "Ah, na hora de enfiar não é nojento né? "É meio nojento sim" "Como é que é?" "..." "Repete seu bosta!" "É meio nojento, o que posso fazer?" "Eh, quando..." "Parece uma boca de polvo, melada e malcheirosa" "Ah eu sou malcheirosa então?" "Claro" "Tá bom, seu merda, sou a Rainha das Malcheirosas" "Vem cá, você me pede pra parar o carro pra trocar o modess na rua e ainda se acha a Sophia Loren dos cheiros?" "Quem?" "Sophia Loren, foi uma..." "Osvaldo, quem é ela? OSVALDO?" No meio dos meus pensamentos toca a campainha. As pessoas sempre aparecem nos piores momentos. Já atendi a porta dormindo, doente, drogado, no meio de um ataque de pânico, no meio de uma punheta, de uma bela refeição, no meio de uma boa cagada. Era alguém que eu não conhecia. Era uma linda mocinha sorridente rica e cheirosa, falava com o sorriso. Eu já achei que era pedido de donativos. -Sim - eu só abri um pouco da porta. -Olá, você é o _______ né? -É, sou. -Eu vi o teu site na Internet aí peguei o endereço e resolvi dar uma passada. Nem avisei mas é que eu precisava falar logo sobre uma... -Realmente não estou interessado, ando ocupado e não tenho tempo nenhum - cortei sua frase. Maldito site, um chegado fez pra mim, bateu umas fotos dumas peças minhas e meteu num servidor gratuito, nem sei o endereço de cor. Nem quero saber. -É rápidinho, dá pra entrar? - perguntou a senhorita Sorriso. -Eu... tava trabalhando numa obra, você chegou bem no meio. -Prometo que não mexo em nada - ela já foi entrando, e deu de cara com aquele cagalhão fedorento. A expressão de horror e nojo que ela fez eu jamais vou esquecer. -O Q-QUE É ISSO? -Eu estou fazendo umas... misturas orgânicas - foi o que consegui pensar na hora. Uma boa frase. Ela até tentou começar a falar, mas não tirava o olho da merda. Estava quase hipnotizada, não conseguia parar de olhar para uma coisa tão horrível, tão fedida, provavelmente ela nunca vira uma merda alheia, em seu mundinho belo e perfumado. Talvez nem olhasse o próprio cocozinho, na louça cara de seu banheiro, antes de apertar o botão da descarga. Talvez nem olhasse o papel higiênico usado com aroma de rosas após passá-lo no bumbum branquinho. Nem deixava o noivo olhar para o bumbum branquinho - essas mulheres SEMPRE têm noivo. Nunca vira uma bosta pastosa, fresquinha, brilhante, era virgem nessa visão do inferno. Eu era o carrasco dela, era quem fazia uma bonequinha de luxo VER uma merda, e sentir o cheiro. Talvez aquele fedor até se impregnasse em suas roupas. Finalmente alguém compartilhava comigo, à força, a visão de uma beleza exótica, a beleza plástica e o design e detalhes lustrosos e grãozinhos de milho de um cagalhão no meio da minha sala. Pelo menos em termos de arte eu fazia a coisa certa. E nem precisava me esforçar muito.

8 de dezembro de 2014

Artigo: A dama e o veado

 Fotos: Jen Osborne



por Marcio de Almeida Bueno

De maneira que esse amor sob confinamento, quase uma cena de S/M, é perceptível no momento em que uma das partes está com uma corda no pescoço. Claro, nem todos percebem essa sutileza, linha tênue que separa uma história emocionante, ‘inspiradora e exemplar’, de um relato ingênuo que vê brilho nas molduras da tristeza. É como vejo o caso de Janet Schwartz e seu veado Bimbo.

Para quem não acompanhou o caso, Janet Schwartz é uma idosa que criou o veado Bimbo desde seu primeiro dia de vida, morta a mãe doze anos atrás. Agora ele passa seus dias em um curral lamacento - de onde não poderia escapar de um urso ou puma, abafa o caso - e dorme dentro de casa durante a noite. O governo do Canadá interferiu porque é ilegal ter um animal selvagem como ‘pet’, aí virou comoção, entrou a Imprensa no meio, ‘onde já se viu, pobre velhinha’, e ficou por isso mesmo. Bimbo na coleira, amarrado aqui, preso acolá, trancafiado em casa na hora de ser bibelô e dar selinho em sua dona - repito - dona, depois volta para o cercado enlameado. É sua gaiola, seu aquário.


Entre o bucólico que a fotografia transmite, a beleza rural que tantas lembranças trazem, está um contrato de propriedade à força. Bimbo não é mais ele próprio - correndo pelos bosques canadenses, escapando dos ursos, fazendo fuc-fuc e constituindo família, e o que quer que os cervos façam em seu dia a dia, que não deveria ser da nossa conta. Não, Bimbo virou Bambi, um animal-brinquedo, animal-consolo, animal-meta e bichinho de pelúcia de si mesmo. Sua dona - firso - dona tem certeza de que tudo está OK porque Bimbo lhe dá lambidas e selinhos.

Como muitos animais que caíram nas mãos de amorosos humanos. Alguns têm uma rodinha para correr o dia todo, outros ficam presos o tempo todo porque são ‘muito brabos’, outros andam na calçada aos puxões no pescoço, enquanto alguém impacientemente espera por um cocô, xixi ou cheirada, outro tem um lindo aquário para nadar em círculos, outro cumpre pena de prisão perpétua em uma solitária cujo jornal é trocado todos os dias, com, hã, amor.

O que muda é o tamanho da gaiola.

1 de dezembro de 2014

Feira Vegana Especial de Natal acontece no próximo domingo

No dia 07 de dezembro, domingo, das 11h às 21h, acontece a Feira Vegana de Porto Alegre Especial de Natal, na Casa Liberdade (Rua Liberdade, 553 - bairro Rio Branco – Porto Alegre/RS).
O evento contará com 17 expositores de produtos exclusivamente veganos, que comercializarão alimentos, cosméticos, produtos de higiene e limpeza, todos livres de crueldade animal.
Os grupos Bichos do Sarandi e Gatos da Redenção, que cuidam de animais carentes na capital, estarão promovendo um brechó beneficente. Um evento de adoção de animais abandonados será organizado pelo grupo Patas Dadas.
O coletivo Vanguarda Abolicionista estará distribuindo material educativo sobre direitos dos animais e orientando as pessoas acerca do veganismo.
A empresa Delivery Veg estará sorteando uma cesta de Natal, recheada de produtos veganos, para seus clientes.
Às 11h, acontece uma oficina de suco verde, oferecida pelo valor de R$ 10,00. Não é necessária inscrição antecipada.
Às 14h, acontece a palestra “Alimentação Veg, o remédio Divino”, com o terapeuta ayurvédico Radhanti Maharaj.
Às 16h, a psicóloga e ativista Eliane Carmanim Lima falará sobre “O mito da proteína animal, da bioquímica às ciências sociais”.

Link do Evento: https://www.facebook.com/events/1517971001795149/?fref=ts.